sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Efeito Pinóquio e o Espelho da Realidade

A gente sempre quer saber quem está falando a verdade, principalmente no meio político, em que muitos mentem descaradamente. Nasceu um novo mundo. Nesse novo mundo, os políticos que mentem ganham o "efeito Pinóquio": a cada mentira dita por eles, o nariz vai crescer. Todos passam a reconhecer os políticos de acordo com o tamanho do nariz, sabendo exatamente se estão mentindo ou se estão falando a verdade. Os verificadores de fatos, por sua vez, apontam a veracidade das declarações com base no tamanho do nariz dos governantes.

A sociedade vota em quem mente menos, ou seja, em quem tem o nariz no seu tamanho — suponhamos — normal. Quem já nasceu com o nariz grande não nasceu mentiroso, mas, se continuar mentindo, pense no quão feio será. Nesse mundo, os políticos que cometem crimes não terão seus delitos medidos pelo nariz, mas sim de acordo com as suas ações. O julgamento jamais deverá ser feito pelo tamanho do nariz, até porque seria um grande erro, já que se sabe que quem tem o nariz normal também pode cometer crimes. Mesmo assim, a justiça vai perceber imediatamente quando o político julgado estiver mentindo. Pense numa delação premiada justa, com um verificador de fatos visível, capaz de detectar tudo.

Contudo, o mundo que nasceu não é 100% justo. Nele, há pessoas que não são políticos partidários, mas que carregam sua própria visão política. Quem sabe muitos desses queiram ver aquele que tem o nariz maior como alguém capaz de dizer a "sua verdade" (para não dizer mentira) como uma forma de coragem. Isso, talvez, não se diferencie do mundo anterior, em que muitos ditavam mentiras em forma de verdade e havia quem visse nisso um ato de bravura.

Surge, então, a briga dos que lutam pelos políticos de nariz pequeno contra os que ganham narizes grandes de acordo com as mentiras proferidas. Esse mundo se transforma em um caos, porque ainda há instituições que não estão inclusas nesse efeito Pinóquio, assim como o restante da sociedade. Quem quer condenar os que mentem perde o direito na medida em que percebe que a perfeição do seu próprio nariz não o impede de mentir. Por outro lado, os que querem defender os que estão sob o efeito Pinóquio não aceitam nenhuma crítica contra eles.

Voltando para o mundo atual e saindo do universo do efeito Pinóquio, conseguimos perceber que ambos os mundos não se diferenciam. Vemos uma sociedade que aceita falas que vão, muitas vezes, de encontro aos seus próprios ideais, tolerando esses absurdos como se fossem um ato de coragem de quem os proferiu e enxergando essa pessoa como "verdadeira". Vemos uma sociedade cega a um ou mais candidatos, capaz de defendê-los com unhas e dentes, tentando passar a mão na cabeça deles e ocultando seus erros, por mais visíveis que sejam. Vemos a justiça se fazendo de cega e dando imunidade a quem age com má-fé. Vemos, também, a mídia manipulando e os algoritmos das redes sociais destruindo nossos neurônios, jogando-nos uns contra os outros como forma de gerar engajamento e monetizar o ódio sob o pretexto da liberdade de expressão.

Não adianta nascer um novo mundo ou criarmos uma nova realidade enquanto o ser humano perder a capacidade de enxergar o que se passa à sua volta. Quando isso acontece, seus ideais morrem, tornando-o incapaz de dialogar, de pensar, de questionar e de agir.

Ilustração editorial de político com nariz de Pinóquio em palanque. Ao fundo, telas, jornais e termos como "ÓDIO" e "MENTIRAS". À frente, multidão polarizada e hipnotizada por celulares em caos. Imagem gerada por IA.
Ilustração editorial de político com nariz de Pinóquio em palanque. Ao fundo, telas, jornais e termos como "ÓDIO" e "MENTIRAS". À frente, multidão polarizada e hipnotizada por celulares em caos. Imagem gerada por IA.


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