terça-feira, 12 de maio de 2026

A Estética da Lama: Quando a Vida se Torna Irônica Com o Próprio Ser

Você tem que ser da forma que lhe moldam e, nessa, vai chegar o tempo em que você vai perder a sua própria identidade. Sabe que merda é viver no padrão em que nos querem transformar? É, e há quem se incomode com essa palavra: "merda". Mas não há sujeira maior que essa tentativa de limpeza que dizem ser ética. É tudo uma farsa e a gente segue feito marionetes.

Não se preocupem, senhores, não irei tirar a maestria de sua nobreza. É que estou de saco cheio dessa gente careta que tenta ditar o que temos de fazer o tempo todo. Não basta somente isso; querem que sejamos unificados, padronizados conforme os seus interesses. E sempre com as mesmas falácias, como se fosse bom somente o que eles ouvem, degustam e apreciam de forma "suave e tinto" (mais suave que tinto).

Você tem que escutar músicas clássicas — quem sabe as sinfonias de Beethoven ou qualquer outra —, escutar blues, MPB, músicas internacionais... Você não pode escutar essas músicas de hoje em dia, carregadas com letras vulgares, de múltiplos sentidos. Agora, eu quero saber qual é o seu gosto musical. Sei que você escreve; estou sabendo que você anda transformando palavras em imagens capazes de transmitir aromas, sons... Você tem um bom paladar, sabe aquelas coisas de etiqueta, se veste com aquelas roupas bonitas como se fosse detetive.

Que é isso? Cada ser escuta o que bem quiser e entender; cada ser se comporta do jeito que quiser. Escute o que você quiser! Não me venha com essa de "bom gosto"; o que pode ser de "bom gosto" para você, para outro pode não ser. Cada artista tem o seu público e cada público escuta o que quer. O artista não pode viver sem o público, logo, ele se sujeita a dar ao público o que muitos deles querem (não é difícil entender o que chamam de vulgar e o que condenam nas letras de múltiplos sentidos). Não me venha com essa de ser chique demais, de querer ser melhor que os outros; como diz um certo poeta: "quanto mais se eleva, maior é a queda". Imagine se escreverei somente sobre as árvores, sobre o cantar dos pássaros, o movimentar dos rios... Não, já é quase impossível. Olha o quanto tudo tem mudado e vem mudando; a geração de hoje vive um presente que não condiz mais com o passado.

Você quer saber qual é a minha indignação, você quer saber que revolta é essa, você quer saber os motivos. Não basta somente essa gente alinhada, mas uma parte de uma sociedade julgadora da qual eu faço parte. Não, não é para fazer sentido, se já não fazia sentido antes.
Sabe, meu bem, qual é o prazer de deitar no sofá ou, quem sabe, pular a janela, correr na chuva, gritar "olha o avião" ou, quando a energia elétrica que tinha faltado volta, se sujar de lama, sentir da chuva o cheiro de terra molhada, esquecer de bater o sapato no tapete (mas como pode sujar o tapete tão lindo?)? Não quero saber mais disso; quero sentir essa rebeldia circulando no sangue.

Apenas quero mesmo é ver o que você tem a me dizer diante dos seus questionamentos. Quero ver o quanto somos moldados e até em que ponto chegaremos; se ainda vamos pisar no chão firme a ponto de querer assumir a nossa própria identidade. Enquanto isso, diante da minha indignação, eu quero desenhar o futuro no pedaço de papel e rir do papagaio que só imita o que falamos, e ainda saímos de besta.

Os Beatles na capa do disco Abbey Road — Foto: Reprodução
Os Beatles na capa do disco Abbey Road — Foto: Reprodução


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